Com 43 capítulos, o segundo volume de “Professores de Computação na Educação Básica” apresenta experiências educacionais. Um dos relatos aborda o ensino de programação e robótica a estudantes com autismo e altas habilidades, em Manaus.
Por Redação | 22 de setembro de 2026

Disponível gratuitamente em formato digital, a obra reúne 43 capítulos em 262 páginas. Os textos apresentam práticas de professores, pesquisadores e licenciandos com pensamento computacional, programação, robótica, inteligência artificial, cultura digital, metodologias ativas e inclusão.
Uma experiência de inclusão em Manaus
O capítulo 19, intitulado Educação Especial e Computação: uma jornada tecnológica pelo Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Altas Habilidades ou Superdotação (AHSD), é assinado por Tiago Cauassa Leão, Denise Teperine Dias, Andrezza Belota e Kelly Souza e ocupa as páginas 124 a 138.
O relato descreve atividades realizadas em 2025, em um curso de Programação e Robótica Educacional, com duas turmas de crianças entre 8 e 10 anos. Uma delas incluía um estudante com TEA; a outra, um estudante com AHSD.
A proposta aproximou os participantes dos fundamentos da Ciência da Computação por meio da construção de robôs, da criação de jogos digitais e do desenvolvimento de invenções. O planejamento foi ajustado às características de cada estudante, com atenção aos seus interesses, às dificuldades encontradas e às possibilidades de aprofundamento.
O ponto central do relato é a mediação pedagógica: observar como cada estudante aprende e adaptar os recursos para favorecer sua participação, autonomia e desenvolvimento.
Rotina visual e diálogo com as famílias
Antes e durante as atividades, o trabalho considerou a observação dos estudantes, documentos técnicos compartilhados pelas famílias e reuniões com os responsáveis.
As aulas duravam uma hora e meia e contavam com um cronograma visual no quadro. A organização ajudava a antecipar o que aconteceria em cada etapa e, segundo o relato, a reduzir a ansiedade diante de situações novas.
A rotina combinava atividades livres, revisão de conceitos, uma explicação teórica breve e momentos de prática guiada ou criação autoral. A estrutura foi articulada aos princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), que prevê diferentes formas de apresentar conteúdos, promover o engajamento e permitir a expressão do conhecimento.
Entre os recursos utilizados estavam codeSpark, LEGO Education SPIKE, Microsoft MakeCode, placas micro:bit, kits de robótica, sensores, materiais recicláveis, robôs Blue-Bot e o ELECFREAKS Smart Home Kit.
Do interesse por LEGO à lógica de programação
Para o estudante com TEA, o interesse pelas peças de LEGO foi o ponto de partida. A montagem dos modelos ajudou a estabelecer relações entre a estrutura do robô, os comandos de programação e os movimentos produzidos.
O percurso exigiu ajustes. Na transição dos blocos de programação com ícones para os baseados em palavras, o estudante apresentou dificuldades para organizar a sequência das instruções. O professor introduziu, então, uma placa micro:bit associada a um kit de automação residencial, buscando trabalhar planejamento, abstração e criatividade.
A nova plataforma também trouxe desafios de adaptação. Diante da preferência do estudante pelo ambiente LEGO, a estratégia foi retomar esse recurso. Para os autores, acolher a escolha ajudou a manter o envolvimento e a criar condições para novos avanços.
Ao final do ciclo anual, o capítulo relata que o estudante havia desenvolvido domínio da lógica de programação por blocos, tanto com ícones quanto com palavras. Os autores destacam a contribuição dos apoios visuais, da previsibilidade e da flexibilidade das estratégias ao longo do processo.
Altas habilidades: espaço para aprofundar e criar
No trabalho com o estudante com AHSD, a prioridade foi o enriquecimento curricular. Os desafios ganharam complexidade de forma progressiva, permitindo aprofundar conceitos e desenvolver projetos autorais de acordo com seu ritmo de aprendizagem.
Como desdobramento, o estudante recebeu um kit micro:bit para utilizar em casa. Segundo o relato, a iniciativa estimulou a aprendizagem autônoma e evidenciou a importância de um plano de enriquecimento com objetivos, estratégias e formas de acompanhamento adequados ao seu perfil.
Coleção valoriza o conhecimento produzido por professores
A publicação dá continuidade ao primeiro volume de Professores de Computação na Educação Básica: Relatos de Experiência, lançado em 2024 pela Editora Bagai, com 99 páginas.
O segundo volume amplia esse registro com práticas de diferentes etapas e modalidades de ensino. A coleção valoriza os educadores como produtores de conhecimento e compartilha experiências que podem inspirar projetos em outras escolas.
O capítulo sobre TEA e AHSD reforça uma ideia presente no relato: o potencial educativo da tecnologia depende de como ela é integrada ao ensino. Na experiência apresentada, observar os estudantes, ajustar os desafios e respeitar suas características foram decisões fundamentais para construir oportunidades de aprendizagem.
