Tradição familiar, aprendizado precoce e fé marcam a trajetória de Eliel, quarta geração de barbeiros, que transformou a dor da perda em força para seguir.


Eliel cresceu em meio a tesouras, espelhos e conversas típicas de barbearia. Filho, neto e sobrinho de barbeiros, ele representa a quarta geração de uma família que construiu sua história por meio da profissão. Desde muito cedo, o ambiente de trabalho fez parte da sua rotina e moldou o caminho que viria a seguir.

O primeiro contato com a barbearia aconteceu ainda na infância. Enquanto o pai atendia os clientes, Eliel varria o chão e treinava cortes em cabelos retirados da lixeira. Segundo o pai, aquele exercício era essencial para “pegar firmeza com a tesoura”. Mão de criança, aprendizado de homem.

Primeiros cortes e descobertas

Aos 12 anos, Eliel realizou o primeiro corte de cabelo em um cliente. Para alcançar a altura da cadeira, precisou subir em um banco. O resultado, ele não se recorda com exatidão, mas o momento marcou o início oficial de sua trajetória profissional.

Algum tempo depois, veio o desafio de fazer a barba do próprio pai. O nervosismo e a falta de experiência resultaram em alguns cortes no rosto, situação lembrada hoje com bom humor. Mesmo assim, a vontade de aprender e evoluir na profissão só aumentava.

Trabalho, estudo e perseverança

Antes de se dedicar integralmente à barbearia, Eliel trabalhou em diferentes áreas. Passou por oficina de bicicletas, padaria, lanchonete e, por último, por uma loja de discos. Ainda assim, aos sábados, mesmo trabalhando até o início da tarde, atendia amigos que insistiam para cortar o cabelo com ele.

Foi então que decidiu investir em formação profissional. Naquele período, início dos anos 1990, não existiam cursos específicos de barbearia como hoje. O ensino era voltado ao cabeleireiro, não havia internet ou vídeos tutoriais. O aprendizado vinha da observação, da prática e de materiais escassos.

Para estudar, Eliel recorreu a fitas cassete que ensinavam técnicas de corte. Uma das principais referências foi uma gravação de Édson de Freitas, do quadro Transformação, exibido no programa da Xuxa, bastante popular na época.

Após cerca de um ano de curso, deixou o emprego para se dedicar à profissão. A despedida foi marcada por uma frase do antigo patrão, que ficou para sempre em sua memória: “Quero que dê tudo certo pra você. Mas, se não sair como espera, as portas estarão abertas”. O apoio foi decisivo para seguir com mais segurança.

Do sonho ao desafio inesperado

Entre 1993 e 1996, Eliel trabalhou na Pop’s Som, período que guarda com gratidão. O proprietário, Silvinho, permitia que ele ajustasse os horários para continuar estudando. Após concluir a formação, passou a trabalhar com o pai e o tio em uma barbearia da família.

Quando o tio deixou a sociedade, Eliel assumiu a cadeira. Pouco tempo depois, pai e filho decidiram abrir a própria barbearia. Trabalharam juntos por cerca de dois meses, enquanto os móveis eram finalizados. A inauguração aconteceu, mas apenas três dias depois, a família foi surpreendida por uma perda irreparável.

O pai de Eliel faleceu em decorrência de um infarto fulminante.

Sem clientes consolidados e com dificuldades financeiras, o jovem pensou em desistir. Tinha entre 16 e 17 anos e havia perdido sua maior referência profissional. Voltar ao antigo emprego chegou a ser considerado, mas a ausência diária do pai tornava a ideia ainda mais dolorosa.

Fé, família e continuidade

Foi a mãe quem o incentivou a permanecer na barbearia, afirmando que daria conta das despesas da casa. A irmã também ajudava. O pai, ainda em vida, havia conseguido o primeiro emprego para ela, deixando tudo encaminhado para a família.

Eliel decidiu ficar e seguir trabalhando. Desde então, enfrentou inúmeros desafios, mas também construiu uma trajetória marcada pela resistência e pela fé. Hoje, ele acredita que o pai teria orgulho do homem que se tornou.

Grato a Deus pela vida, pela família, pela esposa e pelos filhos, Eliel vê sua história como um testemunho de perseverança. Mais do que uma profissão, a barbearia se tornou símbolo de herança, amor e superação, capaz de inspirar quem, em algum momento, pensa em desistir.